Eu posso ser um bocadinho implicativo, tudo bem.
Mas… a caça.
Não se acanhem em corrijir-me (e tenho visto que não…), mas, qual é a cena da caça?
Podem-me dizer: “Ah, um gajo agarra numa arma e vai para o mato matar cenas.”. Tudo bem. Parece giro. Mas há o paintball, amigos. E para quem pensa que isso é para os putos, havia de levar umas bujardas com aquela merda para ver o que é dor excruciante. Tudo bem, podem-me dizer: “Ah, mas isso não mata.”. Pois não! Mas é por isso é que se inventaram leis contra matar outros seres!
Não se pode. Ou melhor, não se deve. É um instinto primitivo que deve ser eliminado do ser humano.
Matar não é bom. Quer dizer, é melhor do que morrer, mas também jogar só com portugueses na nossa selecção de futebol era melhor do que ter lá um brasileiro, e isso não acontece.
Aquilo não é um desporto. Aquilo é alimentar instintos animais. Então quatro ou cinco maduros acordam às quatro da madrugada (o que já de si é estupidez, excepto por obrigação), metem-se todos dentro de um jipe, vai de enfiar os desgraçados dos cães todos ao molho dentro de um atrelado sem condições nenhumas, e aí vão eles, matar bichos. Mesmo que seja para os comer, não faz sentido. Então para que é que existem os talhos? “Ah, mas é pelo prazer de um ritual masculino antigo.” Tudo bem, mas também entrar num bar e pregar dois tiros num gajo que nos anda a chatear era um ritual antigo no faroeste. Bem, nalguns sítios ainda se faz isso, é só ler a última página do Correio da Manhã.
No entanto, lá se vão prendendo alguns dos que fazem isso. Claro, eu só estou a falar da coisa na teoria, porque para mim aquilo é tudo tanga. Os gajos na realidade não matam nada. Vão para o mato, soltam os cães, pregam dois ou três tiros para o ar, e no regresso passam na “Caçópesca – A sua presa perfeita” e compram meia dúzia de perdizes, duas ou três lebres, e quando se sentem num dia bom, mais um ou outro coelhito. E aí sim, arrancam para casa, não sem antes dar um tiro nos bichitos, para dizer que foram eles que os mataram. Para as mulheres, a coisa não dá estrilho, porque elas estão-se a cagar para os bichos, desde que não os metam ao pé delas. Para os amigos, como só já os vêm cozinhados, também não dá cana porque desde que venha um almocito ao domingo, de borla, os animais até podiam ter morrido de coração, o que conta é o tempero.
Eu acho que esta gente, os caçadores, é realmente um perigo. Até têm licença. Para matar. Se calhar têm nomes de código uns para os outros, lá no mato. “Daqui Bond, comunica Rambo.” – “Daqui Rambo, estou com o Comando. Já armadilhámos duas tocas de coelho. Ainda são crias, mas podem-se tornar perigosos.”. E ainda vêm para a televisão queixar-se que não podem matar neste e naquele sítio.
Matem-se uns aos outros. Bom, às vezes fazem-no mesmo…
Porque é que não vão só com uma faca do mato caçar ursos? Ah, isso já não são capazes. Porque é que não vão só com uma bola dar cabo de leões? Tudo bem, podem-me dizer: “Ah, mas isso já todas as equipas da Superliga fazem.”. É verdade. Então vão mandar águias abaixo com uma fisga. “Ah, mas isso não é preciso porque elas se mandam abaixo sózinhas.”. Ok, façam como os príncipes encantados e montem-se num cavalo para ir matar dragões. “Ah, mas isso não dá porque mesmo que a gente os tente matar vem um árbitro e não deixa e ainda ajuda o dragão a matar-nos a nós.”. Então não façam nada!
Têm desculpas para tudo, menos para andar a matar animaizinhos na floresta. Depois quero ver como é que explicam aos vossos filhos, depois de eles terem visto o filme do “Bambi”: “Vês filhinho, é daqueles bichos que o pai mata na floresta, quando os apanha sem os pais ao pé e eles estão distraídos, o pai espeta-lhes com um tiro de caçadeira na cabeça, querido.”.
E já agora, porque é que vestem as roupas camufladas para ir caçar? Acham mesmo que os animais, se vos virem, não vos vão reconhecer? Vão pensar: “Epá, cheira-me a humanos, mas a única coisa que vejo é aquela árvore com duas pernas e um chapéu ridículo, a agarrar numa caçadeira e a olhar para mim com ar de quem está a fazer pontaria. Ufa, assustei-me, assim já não vou fugir…”.
E mais, como é que é possível darem tiros uns nos outros? Será que esse mesmo gajo que anda camuflado é passível de ser confundido com uma perdiz? Ou um coelho?
E depois ainda há o problema de deixarem as mulheres sozinhas (já sei, senhor doutor, que de acordo com a última alteração oficial na ortografia, Dec.-Lei nº 32/73 (Rectificações), no governo onde José Veiga Simão era então ministro da educação, promulgado em 1 de Fevereiro de 1973, a palavra sozinho não tem acento…), à mercê de qualquer jovem mais vigoroso e agradável à vista, e com mais vontade de as caçar a elas do que aos bichos no mato. Claro, é natural que depois, as últimas palavras que ouvem antes de levar um tiro de um companheiro de caça sejam: “Olha, um alce! Dispara!” – “Um alce? Mas aqui não há alces!” – “Então não vês que é, pelas hastes?…”.
Pum!
Esse "senhor doutor" existe em versão cd-rom ? Dava jeito no PC lá de casa...
Afixado por: TR5 em outubro 17, 2003 04:14 PM« ... vêm a estes sítios ... », sim. Agora,
«... já os vêm cozinhados ...»?
Por conta do Decreto-Lei, as mulheres safaram-se.
Tal sorte não bafejou as «sózinhas» águias.
5, de 1 a 10.
O texto tem algum humor, é verdade, mas julgo que o John nunca foi à caça, não sabe, não entende este prazer.
Afixado por: ribas em outubro 17, 2003 12:43 PM